uma rua - uma noite


O olho do olhar pela primeira vez é romântico, como o de vivendo, lânguido, e o de partida, úmido.

Como são felizes os pequenos cãezinhos, quando não lhes percorre o frio desamparado , quando não lhe perseguem pneus ou a fome fina. Focinho e fadiga.
E como é triste este portão entreaberto deste casarão escuro.. este jardim órfão que cresce desordenado em ramos surdos e estas janelas que perguntam, a mim como a um deus perdido, fugiram meus donos por esta noite eterna...?
Esta rua dá às vezes vontade de me atirar sobre ela, e docemente beijar-lhe o rosto cinza... a ordem exata das coisas tão caóticas e os respingos de luz nas poças finas, os meus passos de indo para casa quando o dia já é quase nada, e ainda, o tropeçar dos mundos marchando todos para direções diversas buscando suas panelas abertas com hálitos de cozidos...
Eu há muito escondi minhas incoerências no meu teto. Dançam valsas de mãos dadas minha solidão e minha lembrança.
Tranco a porta e deixo uma rua cinza e fria com cãezinhos que dormem trêmulos e um jardim que fere sonhando com o doce rangido de um portão entreaberto.

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