sexta-feira, 19 de maio de 2017

sol


enorme carrega a barriga, redonda, como um sol. adentro outros olhos de ver o mundo. espera que vejam menos guerra, mãe, espera que vejam menos tiro, espera que vejam mais paz e pão. enorme carrega o sol, redondo, como um filho. adentro outros futuros mundos, virão. carrega na ponta da mão o outro crescendo. espera que sintam menos fome, mãe, espera que sintam menos solidão, espera que entendam mais paz e pão. enorme carrega a barriga como um arco-íris. adentro, cores de pintar o mundo, são. espera que venham sãos, os filhos. como sóis, de ilumiar o mundo, virão...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Clara


Claros olhos da manhã
E meus olhos rasos d’água
Clara, as cores dos teus olhos
Estrelas na madrugada
Toco a vida e minha viola
Que a saudade não se acaba
                Ê boi!...
                Ê boiada...

E contra o castigo do tempo
Laço minhas alegrias
Doce e dureza, Clara
Agreste flor de meus dias
E no atropelo dos bichos
O tropel de meu peito, Clara
                Ê boi!...
                Ê boiada...

Ê juntar os animais
juntar claras esperanças
Atravessam a poeira os bichos,
E seus olhos claros de lança
Oram a Nosso Senhor pela hora clara do dia
Ora, Clara, pelo dia
                Ê boi!...
                Ê boiada...

terça-feira, 2 de maio de 2017

flor


por que dissesse, flor
que fosse embora?
e agora, flor
não sei mais rir...
girava a flor
nos seus cabelos, flor
no seu sorriso
que vai sumir...
por que deixasse, flor
eu sem teu cheiro?
eu sem teu beijo,
pra onde ir?
tem só saudade, flor...
ah, s'eu pudesse...
se ocê voltasse, flor,
pro céu abrir...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Retratos



Quando chovia se usava galocha Ou a sacola da mercearia Depois, a do hipermercado Depois. Eu era grande e não me importava em molhar os pés.
A fita rendada no cabelo A farda azul marinho o brasão do município no peito - eu nem sabia. O joelho encardido as meias enroladas.O medo do futuro vidrado nos (gloriosos) boletins.
Quando o Brasil perdeu minha primeira copa Tinha tinta nas ruas Eu não sabia onde era o México. Mas quando perdeu minha segunda copa Eu, que não entendia então por que o Brasil era o país do futebol, Chorei quando levei – eu, eu – o gol do Caniggia. Naquele dia meu irmão enjoou de pipoca - não volta a comer nem agora que calça quarenta e dois. Mas depois a gente jogava botão, BRASILXARGENTINA – foi aí que aprendi a torcer contra a Argentina. 
Minha avó morava do outro lado do país não dava pra visitar nos fins de semana. - também não dava pra ir no cinema nem pra ir para fora do portão mas isso a gente sabia que tinha.
Quando minha avó primeiro me visitou Minha mãe foi à feira Ganhamos barras de chocolate meio-amargo Minha avó alemã escovou os dentes, por engano, com creme de barbear. 
E não me beijou... pensei que ela fosse muito antiga.
Quando eu cresci eu estudei inglês, espanhol, francês.
Minha avó só sabia a língua dela.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Santiago carrega nuvens

           
    Santiago tocava sinos numa cidade – zinha, zinha, zinha – onde todo mundo se comunicava pelas janelas. Pelos cotovelos, becos. Pelos sinos. Pelo sim, pelo não, pelas bocas.
   Pelas ruas da cidadezinha dia noite - noite dia Santiago carregava nuvens. De sua pequena casa arrumadinha depois da última placa de boa viagem, Santiago saia, levando na mão suas 2 ou três massas alvas no colorir do todo dia. Escolhia a paisagem conforme as horas do dia - nuvens esfiapadinhas para aquelas horas de preguiça - sono leve – colchão – ventilador – nuvens sábados  a tarde. Ou as grossas e pesadas nuvens de chuva – solidão .. volta para casa .. crianças .. poças espatifadas – trânsito caótico.. janela desenhada. Havia as nuvens carneirinhos. As nuvens adivinhação. Ou as nuvens de céu parado. Brancas, cálidas, mormaço – o mundo acabando em tardes espessas de fumaça nos olhos.
   Santiago dava bom dia, tocava seu sino, recebia fim de mês. Ia no bar dava uns goles, um pro santo em primeiro lugar. Rezava antes de dormir. E esperava. Alguns sonhos enquanto ia, carregado de nuvens.
   Com o tempo Santiago foi vendo o mundo passando, os sonhos rareando, o santo não vinha mais. As nuvens, algumas foram ficando pesadas. Umas se fundiam às outras, enquanto balançavam acima de sua cabeça. Emaranhavam-se os fios. Santiago ia, calças curtas tropeçando os chinelos, atrapalhando os pensamentos levantando suas bandeiras macias.
   Com o tempo não dava mais bom dia. Não rezava mais. Bebia a mais e esquecia o sino. Esquecia o gole do santo. Enfiava o sorriso no bolso da camisa quando ele queria vir sem motivo.
  Deitava sozinho em casa, fechava as cortinas, lá ficavam só aquelas nuvens flutuando pra fora da janela. Grossas, cinza, matronas esperando a hora do chá. De chover. De chorar.
  Santiago chorava baixinho. As pessoas foram esquecendo Santiago, mesmo porque ele morava bem depois, depois da última placa de boa viagem. A cidade acordava dormia, puseram outro pra tocar o sino. A cidade ia falando pelas janelas, pelos risos, e pelos fundos da casa Santiago se escondia dentro da chuva.
   Um dia Santiago carregando nuvens foi pra rua. Sentou, contando as moedas pra comprar um doce. Dava. Ele andava fazendo uns bicos, pintando estrelas numa parede aqui, tingindo de céu escuro outro telhado lá. Passou um conhecido que lhe quis apertar a mão. Ele acenou com a cabeça. Outro que veio de abraços, tapinhas nas costas. Santiago gostou  - tempos em companhia das nuvens e saudade dos ventos.
  O doce numa das mãos, a cordinha das nuvens na outra, balançando cataventosas as nuvens pesadas grossas cinza. Nuvens, cúmulos.
 E foi aí que, no sol duma manhã, o céu azul dum azul sem manchas, Santiago foi levemente destrançando os dedos, deslizando as unhas em sua palma, liberando os cordões finos, que escorregaram pra fora dele tomando o ar, subindo-subindo, rabiscando dentro do fundo azul aqueles tufos de algodão.
   Santiago parado no meio da praça, sorrindo, quase voa. Sinos e sinos tocam. A vida é bela feito aquele doce meio mordido. Feito o céu. O céu e suas nuvens.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

obsolescência programada

cinco meses. aproximadamente. paixões.

depois de tantas, devoluções.

de roupas e apetrechos que vão sendo esquecidos na convivência cotidiana, repartição de responsabilidades apenando cada um dos ex-cônjuges, esses relacionamentos instantâneos. 

cerca de 4 vezes ditas eu te amo. 

como um troço velho se deixa ir para o abrigo de crianças ou velhinhos.

velhinhos ficaram nossos planos.

(mas eu guardo as manhãs nebulosas de nossos pós-amores, a incongruência toda de nossas pernas nossos disparates a divisão pacífica dos lençóis dos colchões dos perdões. compreensões infinitas que durariam durariam durariam).

não.

(mas eu grudo as noites cálidas do meu lado esquerdo sob a blusa que você arrancaria antes do café, dentes cravados, fazer o almoço, repartir tarefas, ensinar nossos filhos que nem nasceram, imaginar seus olhos).

seus olhos.
as manhãs.
nossos filhos.


...para onde,nesse mundo rápido, foram, vãos...?

sábado, 11 de março de 2017

11/03

porque vim embora é que o céu choveu três noites de despedida. era o peso da minha saudade calada. minhas nuvens pesadas.
porque vim embora e já não posso mais ver entre as nuvens, de fumaça, que arranjavas no ar enquanto fazíamos planos.
porque vim embora e aqui o sol anda curtindo minha alvura, eu vou ficando quase a estalar, assim, folha seca entre outras dispersas folhas secas.

                um dia você me olhou depois de uma tempestade e disparou
                - Vamos ter um filho?
                eu entendi que era quase amor.

porque vim embora é que de seu rosto eu vou lembrando cada vez com mais detalhes, talvez alguns eu invente. e assim é nosso filho, dos meus grandes olhos aos teus oblíquos.
porque vim embora o tempo passa e noites e dias não são mais que convenções em aparelhos eletrônicos e calendários.
porque vim embora eu choro, e dentro do choro tem eu e você juntos, perdendo horários e noções das coisas, engatando os nós de nossos dedos e dizendo tolices e medos.
porque vim embora e tão triste ainda vão meus passos em ruas desconhecidas em que não houve, ainda, nenhum crime.

porque vim embora...

porque vim embora...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

17/02

nômade, conheço a multidão que só se despede. sinto que deixo pra trás pedaços de mim mesmo, certos ou errados, dados. a próxima geografia é a esperança, medrosa. mas é esperança, e a multidão deixa escrito nas minhas rugas que ela não falte. 
ela falta, sempre, quando entardece e olho sozinha as paredes rabiscadas do quarto. 
são de outros as histórias que conto, vontades de me enriquecer ilicitamente de lembranças. eu as roubo. teço dos dias meus desesperos brandos, minhas tranquilidades vândalas. terço, conto nos dedos, como se deus tivesse esquecido de informar-me que tenho medo.
nômade, conheço as pequenas e grandes feridas das longitudes. deixo para trás beijos que não dei, amores que amei.
eu os amo a todos. a multidão, que não se recorda nem mais de meus poemas. deixo-os pra trás, certos ou errados.

dados. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Esboços

porque amo a perder de vista
porque sonho a perder de vista
me perco de vista e me desfaço
e me esboço em mil pedaços....

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Tereza


(Trecho de conversa ouvida na rua - talvez Tereza não tenha ido. Essa parte saiu de minha saudade).

Tereza
Quando foi
Bateu
A porta
Leveza de
Tereza foi embora.
Tereza era um vestido
Rosa
Com pequenos pássaros
Brancos
Tereza olhos negros
Negra a noite sem
Tereza
Tereza anoitecia
Com pequenos pássaros
Rosa
dei à Tereza
Ela não sorriu mais
Ela não me disse mais
Amor
Ela não mais
Tereza
Um quarto
Vazio
Tereza
Derrubou o perfume
No espelho
Da penteadeira falta
Tereza
Tem um cheiro
Tem um vidro
Vazio
De Tereza.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Das vezes em que morremos por amor


quem quebrou seu coração de vidro em tantos cacos seu coração balão de gás estourou com uma agulha e tornou em pedaços seu coração de aço
quando morreste a primeira vez e achaste que ia ser a última, e logo te ensinaram que há muito mais e há amores depois e há também os cacos que ficam pelo chão e ferem os passos em direção a outro coração e outro que ainda exista
quando morreste pela segunda e terceira vez e prometeste ser a primeira ser a última ser nenhuma
e acreditaste que sangrar lavaria nas peças do azulejo o coração ferida aberta mal que te fizeram ser sensível – acreditaste?
quem te fez deitar e não querer dormir não querer acordar quem te fez depois da paz universal declarar tanto final?
quando morreste a perder a conta, e ninguém mais acreditou que era verdade, porque amas de um jeito grande e que quase a ti engana como se fosse mentira que se possa amar tanto ou como se fosse verdade que não vais voltar a enganar-te

quando morreste da última vez – essa. 
      Ressuscitaste?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quadrinha em trânsito

cada pedra no caminho
conta uma história minha
          de chorando ou de rindo
          cada pedra no caminho
tem um ninho,
donde eu,
beirando ou caindo.
          cada pedra no caminho
tem um sino
um acorde fino
          cada pedra no caminho
é uma linha,
onde teço, sozinho
          meus desatinos.
         
 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Gente

Do mundamente falando pouco sei. Experiências mais de saber ver, que de viver.
Meu vocabulário é dos fins de tarde. De quando o céu tem multicores pinço melhores palavras.
E me entristeço, habitual, às vezes até sei que é alegria de disfarce.
Entendo pouco de gentes. Sei dizer a elas versos bonitos e, por isso, às vezes, me respeitam e até me aplaudem, essas gentilezas.
Mas quando morro de noitinha em meu quarto estou sempre sozinha.
Acho que todos estamos.
O mundo é uma coisa gigante, mas as pessoas são ainda mais tantas. Outra língua, outro jeito de fabricar pensamentos.
Eu, fico boba de tanta formosidade. Gente é coisa de deus, que nem existe. Formosura mais ainda. Gente, sim, existe, eu creio. Miudezas tantas. Deus é um retrato gasto na parede descascada ao lado do calendário de um ano passado.
Gente é sangue correndo vio-lenta-mente...
Singrando corpos.
Eu desconfio, mas outro dia eu amo. Gente, essa graça.
Mundo, calores e som.
Eu, que as amo, apenas. Retrato gasto em parede descascada.