sábado, 11 de março de 2017

11/03

porque vim embora é que o céu choveu três noites de despedida. era o peso da minha saudade calada. minhas nuvens pesadas.
porque vim embora e já não posso mais ver entre as nuvens, de fumaça, que arranjavas no ar enquanto fazíamos planos.
porque vim embora e aqui o sol anda curtindo minha alvura, eu vou ficando quase a estalar, assim, folha seca entre outras dispersas folhas secas.

                um dia você me olhou depois de uma tempestade e disparou
                - Vamos ter um filho?
                eu entendi que era quase amor.

porque vim embora é que de seu rosto eu vou lembrando cada vez com mais detalhes, talvez alguns eu invente. e assim é nosso filho, dos meus grandes olhos aos teus oblíquos.
porque vim embora o tempo passa e noites e dias não são mais que convenções em aparelhos eletrônicos e calendários.
porque vim embora eu choro, e dentro do choro tem eu e você juntos, perdendo horários e noções das coisas, engatando os nós de nossos dedos e dizendo tolices e medos.
porque vim embora e tão triste ainda vão meus passos em ruas desconhecidas em que não houve, ainda, nenhum crime.

porque vim embora...

porque vim embora...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

17/02

nômade, conheço a multidão que só se despede. sinto que deixo pra trás pedaços de mim mesmo, certos ou errados, dados. a próxima geografia é a esperança, medrosa. mas é esperança, e a multidão deixa escrito nas minhas rugas que ela não falte. 
ela falta, sempre, quando entardece e olho sozinha as paredes rabiscadas do quarto. 
são de outros as histórias que conto, vontades de me enriquecer ilicitamente de lembranças. eu as roubo. teço dos dias meus desesperos brandos, minhas tranquilidades vândalas. terço, conto nos dedos, como se deus tivesse esquecido de informar-me que tenho medo.
nômade, conheço as pequenas e grandes feridas das longitudes. deixo para trás beijos que não dei, amores que amei.
eu os amo a todos. a multidão, que não se recorda nem mais de meus poemas. deixo-os pra trás, certos ou errados.

dados. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Esboços

porque amo a perder de vista
porque sonho a perder de vista
me perco de vista e me desfaço
e me esboço em mil pedaços....

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Tereza


(Trecho de conversa ouvida na rua - talvez Tereza não tenha ido. Essa parte saiu de minha saudade).

Tereza
Quando foi
Bateu
A porta
Leveza de
Tereza foi embora.
Tereza era um vestido
Rosa
Com pequenos pássaros
Brancos
Tereza olhos negros
Negra a noite sem
Tereza
Tereza anoitecia
Com pequenos pássaros
Rosa
dei à Tereza
Ela não sorriu mais
Ela não me disse mais
Amor
Ela não mais
Tereza
Um quarto
Vazio
Tereza
Derrubou o perfume
No espelho
Da penteadeira falta
Tereza
Tem um cheiro
Tem um vidro
Vazio
De Tereza.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Das vezes em que morremos por amor


quem quebrou seu coração de vidro em tantos cacos seu coração balão de gás estourou com uma agulha e tornou em pedaços seu coração de aço
quando morreste a primeira vez e achaste que ia ser a última, e logo te ensinaram que há muito mais e há amores depois e há também os cacos que ficam pelo chão e ferem os passos em direção a outro coração e outro que ainda exista
quando morreste pela segunda e terceira vez e prometeste ser a primeira ser a última ser nenhuma
e acreditaste que sangrar lavaria nas peças do azulejo o coração ferida aberta mal que te fizeram ser sensível – acreditaste?
quem te fez deitar e não querer dormir não querer acordar quem te fez depois da paz universal declarar tanto final?
quando morreste a perder a conta, e ninguém mais acreditou que era verdade, porque amas de um jeito grande e que quase a ti engana como se fosse mentira que se possa amar tanto ou como se fosse verdade que não vais voltar a enganar-te

quando morreste da última vez – essa. 
      Ressuscitaste?

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

quadrinha em trânsito

cada pedra no caminho
conta uma história minha
          de chorando ou de rindo
          cada pedra no caminho
tem um ninho,
donde eu,
beirando ou caindo.
          cada pedra no caminho
tem um sino
um acorde fino
          cada pedra no caminho
é uma linha,
onde teço, sozinho
          meus desatinos.
         
 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Gente

Do mundamente falando pouco sei. Experiências mais de saber ver, que de viver.
Meu vocabulário é dos fins de tarde. De quando o céu tem multicores pinço melhores palavras.
E me entristeço, habitual, às vezes até sei que é alegria de disfarce.
Entendo pouco de gentes. Sei dizer a elas versos bonitos e, por isso, às vezes, me respeitam e até me aplaudem, essas gentilezas.
Mas quando morro de noitinha em meu quarto estou sempre sozinha.
Acho que todos estamos.
O mundo é uma coisa gigante, mas as pessoas são ainda mais tantas. Outra língua, outro jeito de fabricar pensamentos.
Eu, fico boba de tanta formosidade. Gente é coisa de deus, que nem existe. Formosura mais ainda. Gente, sim, existe, eu creio. Miudezas tantas. Deus é um retrato gasto na parede descascada ao lado do calendário de um ano passado.
Gente é sangue correndo vio-lenta-mente...
Singrando corpos.
Eu desconfio, mas outro dia eu amo. Gente, essa graça.
Mundo, calores e som.
Eu, que as amo, apenas. Retrato gasto em parede descascada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Bilhetes (uma história nonsense)

Compro meus livros em sebos e roupas em brechós. A primeira razão é a economia permitida pela segunda mão – ou 3ª., 4ª., - atribuída ao objeto. Mas a segunda são as histórias que já estão dentro delas. É que eu sou obcecada na vida é por histórias. Janelas que me parecem telas de um longa em que imagino solidões, amores, intelectuais dormindo sobre livros, ou alguém como eu que sonha em ter um pouco de tudo isso. Bilhetes deixados dentro de bolsos. A gentileza da vendedora do vestido – jornalista de beagá – que desejou que eu fosse ter – vestida nele – a mesma alegria que ela mesma já havia tido. Nele há pequenas girafas brancas num fundo preto. Eu, a girafa branca tentando esticar pescoço para de longe ver os internos das casas, ou o ouvido atento às conversas cruzadas no bar, de onde já pari algumas histórias. Não-ficção com licença poética: no fim, é tudo verdade.
Dessa última vez o presente encontrado foi a dedicatória de um livro:
JUCA, NA MEDIDA CERTA DE SEU AGUDO SENSO CRÍTICO.
BEIJOS, TEU PAI.
Setembro, 2006.
Sensacional. Entusiasmada sonhei um Juca e um pai pro Juca, um pai pro Juca que não tem nome, apenas ofício, de ser “teu pai”. Sonhei todas as conversas entre progenitor e rebento. O orgulho do pai de Juca. O Juca mesmo, estudando Antropologia na federal do Ceará. Imaginei cabelos e barbas no Juca, que de óculos aprofunda seu agudo senso crítico de olhos correndo sobre tintas sociológicas. Imaginei os fios brancos do teu pai, que assiste aos telejornais com óculos na ponta do nariz e chacoalha a cabeça corrigindo em monólogo os achaques dos noticiários.
Eu sincera e profundamente imaginei noites de amor com Juca, com essas conversas utópicas todas de intelectuais falidos, antes e depois do gozo.
E um término em que eu lhe atirasse um cinzeiro, por ter me traído com uma loira obtusa que depois o trairia com um engenheiro mecânico pago para analisar a qualidade de produtos eletrodomésticos que estragam tão facilmente como relacionamentos – como o meu e do Juca.
Sincera e profundamente também quis que o pai de Juca fosse meu pai. Que tivesse orgulho e me deixasse em dedicatória o orgulho pelo meu agudo senso crítico. Crítico. Crítico.
Eu teria recebido minha dedicatória com a afirmação que sempre repeti à facção mais fascista de minha família – todos, apesar disso, de muito bom coração:
PAI, SE HOUVÉSSEMOS NASCIDO NA MESMA ÉPOCA, O SENHOR ME ATIRARIA BOMBAS, E EU LHE ATIRARIA COQUETÉIS MOLOTOV.
E da lembrança das bombas foram surgindo lágrimas do gás e dolorosos efeitos das balas de borracha. Mas meu sangue e ideologias vermelhos – ah “este caminhar sem rumo pela América Latina que me mudou mais do que acreditava....” – trouxe memórias e eu dediquei essa história inventada, parte também, porque TUDO na vida é inventado; escrevendo num rodapé um bilhete para o Juca, vermelho como eu, intelectual como eu, militante como eu e com um olhar de quem quer salvar o planeta com um sorriso.
... APENAS SEU BRAÇO NA MINHA CINTURA.
Mas Juca se foi.
Anotei no espelho – JUCA, SINTO SAUDADES. TE ODEIO MAS TIVEMOS ESSES COMEÇOS TÃO INFINITOS.
Já a meu pai escrevi: não creia em bombas, no efeito imoral; creia nos corações de veias abertas e nos sinais fechados para nós que somos... jovens.
E meu pai, em minha história, me devolveria, letra pausada e firme, corrigida a frase na memória centenas de vezes antes de ser escrita:
 ...Na medida certa de seu agudo senso de amor. AMOR. AMOR.
Pelo homem, o ser, humano.
(Juca não se importa e manda também saudações burocráticas, da sacada onde beija a nuca de outra mulher, cuja cor de cabelo desconheço).
Eu – inventora de histórias através de pistas desses objetos encontrados, doados, enjoados. Quero bem a todos. Apesar das bombas.
Beijos, Juca.
Beijos, meu pai.

domingo, 11 de setembro de 2016

Desabafo


Você tem 36 anos, não tem filhos, namorado, muito menos marido. Ainda não se formou no curso dos seus sonhos.  Não construiu uma carreira de sucesso – leia-se bônus anual e viagem pro nordeste no verão. E já apresenta as primeiras escritas do tempo no canto dos olhos e testa. Marcas tardias da já experiente balzaquiana.
Vê-se como um certo tipo de vergonha nacional, tropeçou em todos os obstáculos da corrida com barreiras.
Totalmente perdida nesse mundo de meu deus. E nem rezar pra todos os santos não pode, porque já não tem fé.
Bem, eu tenho. Em um dos braços escrevi liberdade: viva e deixe viver. No outro, lado do coração, repito infinito o fim do poema de Leminski – o sonho, esse, eu mesma carrego.
É porque eu esqueço quase todo dia, e por isso grudo na pele, à tinta, a tinta que é minha forma natural de expressão. E descubro que eu não tenho 36 anos.
Eu vivi 36 anos.
E salvei na pele cada momento bom que, rasgando, consegui arrancar de um mundo voraz que quase nunca entendi. E que rasgou também meus verbos e canto dos olhos.
Já tive fome – não daquela das multidões miseráveis que só de fé esperam um próximo dia. Já passei frio, mas não daqueles indivíduos-bichos que dormem nos lares dos cães. Mas sim por escolher estar em outros mundos, vendo outras paisagens. Pra estar em outro país vendo outro céu. Pra estar de madrugada vendo as estrelas. Pra gastar os últimos trocados em uma noite gelada com aqueles últimos goles que já nem cabem na noite que não quero que termine.
Eu tendo a pensar que sou livre, mas esqueço que me cobro pelos meus 36 anos – quarenta, quarenta quase!! – e toda vez que alguém acha que eu sou mais nova do que o real, fico feliz, como se só ser jovem fosse bonito e bom. Como se eu, como mulher, tivesse um prazo de validade. Biologicamente improdutiva. Socialmente incoerente. Como  se tivesse de correr porque estou muito atrasada em relação a minhas dividas para com a sociedade. Uma sociedade que me quer lisa, magra, produtiva e impune. Mas eu tenho todas as culpas.
E o fato é que não devo nada mesmo a ninguém. Nem ao cartão de crédito. E às vezes sinto que vivo para pagar. Para apagar marcas. Para pagar erros. Para pegar um trem pra onde eu nem desejo ir.
Você? Tem ideia de pra onde ir?
Bem, eu tenho. No braço direito, meu delicado foda-se . Em outro, o peso leveza de carregar um sonho.
E sim, os melhores sonhos são aqueles de transportar por dentro acordada olhando a lua, passando frio, fome, ou incerteza, mas rindo como se nunca houvesse um ontem em que tudo pareceu acabar. Como se só hoje precisasse existir, contando as moedas pros goles com os últimos amigos. Contando histórias, e esperando aquelas que eu ainda vou viver.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

poema de tarde

só sei escrever quando estou triste. o que não é um problema, condição que me permite um saldo de cerca de trezentos dias no ano aptos a alguma composição. mas sendo que minha pouca técnica, habilidade e poesia internas reduzem essas possibilidades a menos de cinco por cento, produzo pouco. não sou fábrica, apenas contabilizo dias, nos dedos e papéis, quando tudo dói. 
nasci assim, só sei dizer que tudo que me sai escrito é sangrado. feito  tatuagem que se faça pelo contrário.
sinto que minhas paredes internas estão cheias de escritas ancestrais. riscos. e me visto do avesso tentando contar-lhes uma história.
mas não tenho melodia nas letras. escrevo frases não componho canções. e talvez isso, mais o medo de cair de bicicleta, completem, em mim, minhas mais dolorosas frustrações. 
sei tocar três músicas no violão, pulando os acordes menos práticos. mas no fundo desejava realizar uma canção de amor falando de alguém que, nunca tendo amado ou sido amado, em voz ativa, passiva, ou em nenhum tipo de sintaxe, só saiba escrever poemas assim: estirados como veranistas em suas cadeiras espiando o sol. sem ruído, sem notas. sem assaltos.
hoje, no entanto, estou feliz a ponto de me deixar aqui parada sem respeitar o mínimo de perturbações.
o vento desmanchando meu despenteado – que talvez se acerte. o céu liso liso liso feito uma parede de azulejos parando o tempo.
e eu faria um poema de amor agora se estivesse triste, mas calma. espera  esse pouquinho.

o sol... 
o céu... 
imaginar coisas que tenham suas mãos.... 
                             crer-me in-vi-sí-vel......


essas manchas vão, vespertinas, desmanchando meu peito que, talvez, se acerte.

terça-feira, 28 de junho de 2016

Desmanual dos esquecimentos

Atravessar. Até que se passe ao outro lado completamente. E nada de si fique deste lado, nem ocorra de voltar-se para buscar, oh, aquele pequeno lírio ou algo sem sentido se estiver fora do contexto. Um pedaço de papel.
Atraversar. Escrever versos nas paredes e até que se acabem as paredes, e nos muros até que você seja abordado por um guarda. E seguir escrevendo versos no seu próprio braço porque ele está vazio.
Atrasar. Deixar todo compromisso esperar como você espera a chuva para dormir. Atrasar todo o tempo do mundo, porque o mundo não deveria estar girando e funcionando e as lojas de secos e molhados e as casas bancárias e as grandes convenções mundiais sobre ecologia ou a banca de jornais, muito menos a banca de jornais que datam, que pregam nos meus olhos – fatigados – a contagem de tempo dessa história.
Atravessar até que não haja dúvidas. Atravessar como os crentes dos Andes ou os fiéis do sertão que pisam em brasas quentes e não sentem dor – ou fingem que não a sentem - para provar que não têm pecados.
Mas e eu? Que sinto dor e sou pecadora, tão pecadora, e tão por dentro tenho meus próprios atravessamentos em brasas tão quentes?

sábado, 18 de junho de 2016

sábado de tardinha

E a saudade é uma coisa assim pequena mas pontuda. Primeiro compartida. Mas que vai virando minha e vai deixando de ser tua. Quando deixa de vez traz tuas malas tuas coisas pequeninas, traz tua janela pra eu te ver. Traz a lua.
A solidão é uma coisa assim de besta, tanta coisa nesse mundo pra fazer. A vitrola tenta ser minha menina, mas minha menina não consegue se mover. Eu arrasto as meias pelo piso fazendo de conta que algo vai acontecer. Aí desligo a canção tortinha, que o que acontece é que eu choro de você.
A tristeza é uma coisa assim de espaços. O coração agigantar num abraço o corpo fechar num vão. A rua tenta ser minha companhia, tanta gente vai e vem eu eu sorrio para a multidão. Não, ninguém me vê, mas é bonito mesmo assim me ver sorrindo. Porque de longe dá pra ver que é uma luminária, esse meu olho verde d’água só caindo. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

enganos

Ela é manhãzinha ainda estrelada. Vejo-a porque meus olhos fechados já não sabem o que imaginar sem ela. Sinto ainda sua pele em mim tatuada mas com o peso de minhas idades a pele envelhecida diz “tenho pressa”. O lençol o piso o livro eles gritam “onde?” Eu amorteço para não ouvir as lembranças. Eu a conheci no outono. Era frio. Seus lábios espantavam névoas de onde eu dispensara esperanças. Eu acreditei e pretendi planos. Ela deixou brotar botões. Ela me despiu de cruezas. Ela cuspiu atrocidades. Ela fugiu não de mim, mas dela. Eu ajuntei os dramas, as palavras dispersas e então me fiz um colar de memórias que mudam de cor conforme a luz do dia. Ora ela está rosa como flor despetalada murcha e morta. Ora da cor de seu olho azul. Ora é apenas a cor do meu céu nublado sem sinal de sol ou salvação. Ela bateu a porta e eu a encaro solenemente e sem fim apostando que ela volta, depois de engolir umas propostas de enganos. Porque é preciso enganar-se para forjar planos. É preciso enganar-se para existir.
Eu a conheci no outono. Ela despetalada, de cor azul. Eu entendi tudo possível.

Agora, é preciso mentir.