quarta-feira, 30 de maio de 2012

Chovendo


eu que não sei escrever nada
quero um cartaz que me apresente
a artista circense
logo eu que não subo na corda
bamba
eu que não sou bamba
quero batucar um samba
na roda
eu que vivo no canto
..e que não canto nada
quero bagunçar coreto
eu que não sou militante
digo que tudo está
      pela hora da morte
- e eu não entendo nada
nada nada -
ouço um som
que toca na sala
mas sou surda-muda
e hipnotizada
eu que não sou mística
quero ler minhas cartas
logo eu que não sei ler nada
- cartas, notas, manuais práticos ...

Eu só sei ser romântica
         Só sei ser atômica

     Só sei crer
          em últimas páginas....

terça-feira, 22 de maio de 2012


passou por aqui
um passarinho
- leve frágil de asa quebrada -
o mundo é grande as asas poucas
- e o amor; tão maior tão maior....

sexta-feira, 11 de maio de 2012


Às vezes me conheço bem. – Poucas.
Quase sempre, quem  me sabe é o vinho lento desbotando o rosto. Os pés trocados no caminho de volta pra onde nem sempre é casa. – abrigo.
Amigos tenho, uns poucos. Trocados, quase nenhum.
Quando me entendo, eu me assusto ou me disperso. Me apresso a me fugir pela pele. Sequer me reconheço. Meus olhos grandes pouco me conhecem. Eu nem sei a cor dos meus olhos.
Quem me sabe é o que gosto sempre. Meu gosto não se discute. Me agarra até os ossos – não sei deixar de amar.
Medos, tenho. Mais que amigos e trocados. E meus medos me sabem bem, quando apertam minha garganta. Também meus dedos me conhecem, olhando pela garganta, apressando o lixo.
Eu não minto, nem pressinto. Eu não me prevejo. Uma ou outra vez eu me cumpro. Quase sempre, mesmo, eu danço. Às vezes caio, as vezes levanto. Outras, nem tanto.

Quase sempre quem me sabe  é o que cuspo.

sexta-feira, 4 de maio de 2012


Quando abri a porta
e vim ver o mundo
olhei o céu quase chovido
eu era mínima
e o mundo era grande
e eu correndo pra ele
Depois de tudo,
minha casa ficou pra trás
meu tamanho
o quase de todo céu
e tudo era inteiro
(e eu que nao sei ser sem correr
sem chover
sem mastigar mundo...)
Mas quando o mundo entorna
a casa tao longe
eu só feita de coisa torta
me encolho mínima
sem porta

toda ventania.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Abril


abril indo embora
com minhas certezas.
um dia meus olhos em brumas
noutro uma lagriminha pende..
quem sou eu agora que pintei as unhas?
que gritei pra lua?
que me rendi?

- eu insisto depois de cada morrer de susto.

Maio me verá sorrir.


domingo, 22 de abril de 2012

Praça

Aguardo minha sina no banco da praça. Ao meu lado um homem mastiga comovido um pão com manteiga. Seu olho é úmido. Eu leio olhos, já estou ficando especialista. Sei que ele tem saudades. Outro sujeito grita impropérios no telefone público, ameaçando a paz da praça. Mas as pessoas passam sorrindo porque é domingo. Não há sol; todos mais ou menos usam casacos.
Um grupo animado de senhores conta os resultados dos jogos, as vítimas da semana, e elogia as moças bonitas.
Eu não sou uma moça bonita, sou uma moça com um caderninho. Aliás, tudo que sou depende de ter um caderninho. Eu sorrio e choro aqui sozinha porque me lembro uma outra praça. Ou por prever caminhos. E viro letra pra contar o que vi.
Eu tenho um livro na bolsa. Mas não quero ler. Tenho minhas próprias histórias. Seis homens sentados  aguardam assunto para a próxima conversa. Outros dois comentam e cospem. Como parecem crianças! Aquele outro lê, concentrado atrás de grossas lentes, um jornal fino. Eu, como avisei, não quero ler. Eles sao minhas histórias.
Aqueles velhinhos jogam dominó, como se a final do campeonato. Outros dois observam, de pé e com suas sacolinhas de mercado. Imaginei suas patroas em casa reclamando sua demora. Esperando a cebolinha pro almoço. Sorri e chorei.
O alarme toca para me lembrar da minha própria história. Tenho de levantar, recolher minhas imagens, essas praças e essas conversas que guardo na bolsa, no livro, debaixo da unha. Essa praça verde de uma cidade nova. Ao menos para mim.
Dizem que sempre ao entrar em uma igreja pela primeira vez, voce tem direito a um pedido, que se realizará. Eu, mulher de pouca fé, creio mais em praças do que em igrejas. E a cada nova praça eu respiro seus monumentos pintados, seus pombos, seus verdes, os bancos e seus homens, e as crianças que vão ao lado, tontas.
E eu rezo pra sempre ver mais praças e horas sutis em que eu, aguardando minhas próprias histórias, cruze as fronteiras de outras, e faça parte de todos nós, em colorida cópula de sonhos e esperanças.

22/04/2012
Juiz de Fora – Praça Halfeld

domingo, 8 de abril de 2012

Reza

Sou feita de amores que sim
    e que não

De buscar caminhos sou sonho,
    inteira

Minha reza é que não falte estrada
e que não falte estrela...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Uma tarde uma canção


Uma tarde... Livro apoiado nas pernas e canção pra aquecer os pés. O livro fala de medo e a música canta os conselhos de um pai. Eu, medo e coragem em amálgama, lembro de um riso qualquer que meu pai me ensinou.
Olho as paredes anônimas me rodeando sem meus quadros. Meus sons e paisagens estão longe. Aqui estão meus arranhões.
“O que você precisa está em sua alma”... a canção reza em meus ouvidos enquanto desisto do livro e do mundo lá fora, onde, de tanto me acostumar  a ter medo, sou herói. Ando temendo que não carimbem minha carteira, que não me emprestem um cigarro, que não me ouçam à mesa... e que não tenha nada a dizer.
Mudo meus critérios com o mudar do dia. Enrosco-me à cama com meus velhos sonhos ou me lanço às calçadas arremetendo contra leões. E, à noite, não olho para o céu, com medo de me enganar e sorrir. Entorno uma cerveja me confortando com o frágil, e tropeço em uns sorrisos que me apóiam pelos cotovelos.
...No fim, a música repete que tudo de que preciso é ser um homem simples e estar satisfeito.
Enquanto as paredes estranham minha presença estrangeira, e à noite sentindo frio, escondo a canção nos ouvidos e repito os conselhos.
Verifico o teto desejando o céu e eu, de pés na grama, leve. De luz, só uma estrela, a ponta de um cigarro aceso e o brilho no olho – esse que é sempre meu riso mais simples.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Outro nome pra saudade

    A essa hora, em outro tempo, minha mãe fritava bolinhos de chuva. O cheiro escapava pra rua, e tudo que desejávamos era correr pra casa, tomar um banho de só lavar mesmo os pés, para que a cuidadosa mãe deixasse a gente meter a mão na bacia reluzente polvilhada de canela.
    Hoje meus pés repisam duras calçadas. Buscando identidade, farejando lirismos escondidos ou carinhos temporários - que não encontro.
    Também não mais o cheiro dos bolinhos.
    E quando chove, às vezes um cheiro qualquer de canela me engana. Em alguns becos me perco desejando o jogo de bola, os dedos topados, minha mãe a inspecionar meus pés que insistem em querer asas...
     ... e os bolinhos de chuva.

terça-feira, 6 de março de 2012

Trilhas

A lua me engole
   - eu, mínima e triste...

Mas meu passo curto
   mastiga milhas
e me benzo
   de novo
   de sol.

e sigo minhas trilhas....

sábado, 3 de março de 2012

O Preço do Sonho


Hoje estou cansada e sem sono, o que me dá vontade de escrever e providencialmente me traz um bom assunto: sonhos. Digo, aqueles que a gente tem acordado.
Penso que poucos são os que "toleram" realizar seus sonhos. Estranho? Basta que a gente chegue perto daquilo que a gente mais desejou, pra sentir a falta de tantas outras coisas que eram apenas... realidade! Sempre tem alguma pedra no sapato incomodando um sonhador.
E a gente não tem jogo de cintura pra perceber que se faz sol e às vezes chove, é pra que tudo possa nascer e crescer... não apenas para estragar um domingo.
Você, veja o que eu fiz: estou na Universidade, fazendo o curso que há vinte anos proclamo que "um dia" iria fazer. Mas pra isso eu, que tenho trinta anos e nenhuma fortuna no banco, larguei um bom (?) emprego público, a cidade da minha família e todas as coisinhas materiais que faziam meu dia um pouco confortável. Instantaneamente passei a sonhar em estar perto da minha família, numa serena noite de sexta-feira, após um cansativo mas óbvio dia de trabalho e conversas de café com minhas amigas, para retornar à minha sala em que se esparramavam meus discos e livros ... e nada mais.
E tudo porque estou a mais de mil quilômetros de casa, num quarto de albergue com mais 3 beliches que – oh, céus, obrigada! – estão vagos esta semana. E com uma grandessíssima fome já que hoje, por economia, resolvi não jantar. Então dá aquele desespero: onde está minha estante de livros, minha TV (14’, mas fiel!), meu jeito com tudo??? Aliás, e todas as portas fechadas pra meu currículo tão bem-amado, depois de dar um pé no meu emprego burocrático vendendo seguros a quem não quer, pra acabar brigando por aquela vaga de vendedora de planos para celulares... e aí? Pago pra ver?? Meu sonho, exatamente agora, podia ser lançar todo o idealismo pela janela - dane-se o jornalismo sob este sol escaldante que tenho enfrentado às tardes procurando emprego e morada barata - e voltar a pensar como uma mulher séria, metódica e meio bem-sucedida, com umas notas na carteira e a globo news rodando na hora do jantar. E vocês podem estar se perguntando por que eu, doze anos de trabalho exemplar em respeitada instituição financeira, independência e geladeira abastecida, não abro os olhos e volto à realidade.
            Meu caro, pra este sonho comprei passagem só de ida! ... e o pacote era ‘com emoção’. Mais difícil do que abrir mão de preceitos sociais para garantir um sonho é abrir mão do sonho quando você salta nele. Aí você agarra, agarra à unha...
            Sim, eu sei que muitas noites vou olhar o fundo da carteira, coçar a cabeça, me irritar com companheiros adolescentes de uma república. Sei que vou chorar muitas vezes olhando pra este céu entrecortado pela grade da janela – essa baita lua neste céu doído de Minas – um céu enorme nunca feito pra se olhar sozinho...
            E vou me encolher torcendo pra ser só um caldo, um tropeço nessa grande onda que é ser o que se sonha, sem a exigência do atestado-de-coisas-que-se-deva-ter-ou-ser-em-certa-época-em-certo-lugar...
E a noite vai passar, o sol vai estar ali na janela outro dia pra provar que a vida é um ciclo e a gente sempre volta a sorrir (e que pra valer a pena, qualquer choro tem que ser por tentar e não por temer...).
    E se o sol não vier... que venha a chuva! O que não vai ser nada mal já que o sol está mesmo de rachar!!!



        

domingo, 15 de janeiro de 2012

Fome

Tenho
A exata fome dos que esperam
Para viver quando.
Tenho as unhas pintadas de roxo
Com bordas mal rebocadas
Tenho uma camisola preta
De moça de más intenções
Transparências e fitas
- que vesti para acordar pouquinho mulher –
Tenho
A chuva tamborilando na calha mal projetada
E a espinha temporã na cara.
A espinha curva
E umas rugas acusam uns gritos dados
- como se eu fosse grito –
Eu nem sei,
Porque sou moça
Às vezes grito
Mas meu sussurro é ainda mais alto
- e sai do meu cabelo revolto
- da minha caneta de ofício
- do bico do meu seio
- do roxo borrado das cutículas
a barriga que ronca da exata fome
de viver, não quando
Mas nesta hora,
De camisola,
De espinha no queixo
De chuva amanhecida

De ventre, mesmo, amanhecido temporão...

















Amanhecer

Das dobras do lençol
espremidos desejos,
Escorrem de bordadas fronhas
Sonho e medo
Seca no vento uma lembrança
No meio do travesseiro
Desfila no fio
Memória de cio

Quando acordar do pesadelo
Quando mesmo ensaiar o dia?

a cortina desdobra a manhã
pauta inscrita
no pó que dança na réstia

afazeres
quereres

         empilha rumos em lacunas no horizonte e na copa das macieiras...

ao sacudir 
   colcha e corpo
sono e sonho saltam 
no ar   
 em cambalhotas e peripécias.