sexta-feira, 31 de maio de 2019

dos fins


a última noite das coisas. de cada uma das coisas. a última noite prevista ou imprevista. a última vez de um certo recorte de janela. o último sorriso trocado antes de uma tempestade que venta e leva tudo para longe demais. a última vez de ver aquela determinada curva. olhando pra trás.

estou sempre em estado de despedidas. sofro delas.

também começo sempre outros quase fins, sempre quase fins – não permaneço. perco pessoas e coisas e já me habituei embora chaves eu jamais perca, nem papeis, nem datas no calendário. eu às vezes adio decisões para que eu fique mais

Tempo.

adio a última noite das coisas.

pressinto nesse último certo recorte de janela que em breve direi algumas vezes adeus e preciso ir me despedir. isso dói. porque antes, antes eu não tinha uma janela e era mais difícil saber que havia gente e noite depois da parede.

eu também sei construir paredes.
eu também sei derrubar paredes.

como quase todos nós. mas eu picho as paredes, como faço agora deixando este bilhete.

meus olhos. estão cheios de lágrimas. e no entanto, que vitória ter estes encantos.

a noite está calma. não chove. há música pouca vinda de quase lugar algum. é como se só eu ouvisse muito perto já barulhos de carros e passarinhos como se eu voltasse de um mundo longínquo em que eu só ouvia como num túnel o som do meu coração apertado.

eu sei que há você ainda e todos nós depois desta noite. outro recorte de janela. e em breve, outro céu, e eu entortando estas visões tolas do mundo.

viver agigantando ocasiões para que nada se perca. me desmancho.
é tão sonora e profunda a última noite de cada coisa. saber que não há volta. e que eu, só permaneço

em estado de urgência e espanto.

quinta-feira, 14 de março de 2019

vida.


aguardo na sala de espera o papel que me confirmará que eu ainda vivo e tenho saúde por algum tempo. embora haja tantos saltos mortais como viajar na velocidade de novecentos quilômetros por hora sobre tantas cabeças e oceanos embora seja seguro.
embora seja seguro a cada coisa nova que você me disser eu antes vou lhe perguntar, como se à enfermeira que traz a bandeja com uma seringa – vai doer muito?
enquanto espero leio um livro que há meses eu não quero que acabe – é lindo e eu fico pensando o que vai ser quando não houver mais palavras saindo de suas cascas.
acho que a ação de fazer poesias é meter-se por dentro das coisas
inclusive das palavras.
o papel chega e me comove e me dá alivio por alguns tempos como um ruído novo como um doce uma dose como um filme de amor uma hora e quarenta e dois minutos.
porque eu não quero que o amor acabe, não quero que ninguém acabe, não quero que salvador acabe
e eu sinto nesse momento que não sei onde
- dói
- devo ir.
gostaria de nada prender-me e que algo me tocasse em um ponto que me fizesse mover-me não como um satélite ao redor de coisa ou de dor ou de casa alguma mas como um kamikaze reverso que me atirasse às coisas vivas.
gosto de olhar você quando prende o cabelo. quando me prende.
há ainda muitas coisas em mim que estão vivas.

terça-feira, 5 de março de 2019

fim de carnaval


meu coração viaja...
depois de um tempo eu já não desejo mais voltar pra de onde vim. as paisagens anteriores vão se tornando longe incompreensíveis. 
desejo profundo entender todas as coisas de novo e de novos jeitos que não soube nunca. dizer coisas que nunca disse. o mundo é grande e eu quero escrever canções.
(ando nas ruas sem saber muitas vezes por onde, e danço na calçada, fora do ritmo, e você ri).
você me encontra e me ensina lugares de mim como uma nova cidade. tem nas minhas reentrâncias mapas. me diz tantas novidades. eu sou uma grande novidade. me abrace.
eu quero engolir suas ruas como quero engolir esse resto de solidão que não quer me pertencer e me sabota diuturnamente.
eu quero engolir seu sexo entornando eu mesma serena eu não sei ser serena eu tenho medos. me perturbe.
eu digo coisas que nunca disse. cidades em mim são visitadas pela primeira vez.
- eu grito porque não mais me caibo.
que partes de mim sussurram escondidas como ruas inda mal iluminadas...?

me acenda.

sábado, 19 de janeiro de 2019

salvador - noite de quarta (alguma)


era noite e a praça da piedade. você me traduzia as ruas e os prédios eu dizia reclamava que eu não sei onde estou. você me disse não eu não te levaria a algum lugar perigoso.
eu gosto que você me leve a lugares perigosos porque você segura minha cabeça contra seu peito e eu respiro ali como se fossemos os dois eternos embora eu saiba do risco que corremos e
isso me salva.
**
muitas pessoas em volta com fome. você disse olha, calma, ali há um guarda. e disse isso como se fosse uma profecia uma arca da aliança deus em pessoa me dissesse fique em paz
eu não fiquei eu senti um silêncio dentro da gente nós dois perdidos em uma das quinas do quadrilátero  o guarda como se deus e os corpos existindo
eu disse há dez pessoas com fome.
eu não devia, eu não devia ter temido as pessoas. elas queriam apenas dormir e cobriam-se de sabe-se lá que confianças no futuro para permanecerem ali quietos na praça.
podíamos fazer alguma coisa ou não. eu podia ter estado apenas ali. podia amá-los porque eles não nos tomam nada, nada que não lhes pertença também.
piedade.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

chão


trocamos palavras você intruso invadia meu quarto meu mundo só eu com todos os meus traumas meus vexames minhas peças soltas muros erguidos - eu lhe disse eu tenho uma redoma você perguntara porque eu não olhava para você...
(eu olhava para você mas era através dos meus vidros enquanto meus olhos miravam a barra do meu vestido)
e você derrubou-se em minha boca como se tivesse fome e nosso encontro como um ensaio esbarrando braços e pernas desencontrados
(apenas nossos olhos afundavam os de um nos de outro como se pertencêssemos, desde antes, alimentados)
de resto nossos corpos aprendiam-se tão corretos errando quinas e sentindo milímetros...
eu não me sabia ser tão gigante.
..
você se despediu.

EU RESPIREI E DEITEI-ME NO CHÃO PORQUE NENHUM MÓVEL CONSEGUIA CARREGAR MINHA LEVEZA TANTA NAQUELE INSTANTE.

eu fiquei de repente vasta. eu acreditei em coisas inimagináveis. eu existia e dançava em meu estômago sem nenhuma outra vontade eu era chão, deitada, eu não cabia em mais nada. tinha um vento e uma janela aberta no meu peito de onde partiam minhas anotações, entradas de cinema, pássaros.

faz tempo e as coisas em mim seguem derrubadas.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

música sem música lado 1


eu nunca fui a paris eu nunca fui ao comércio eu sou uma turista de gentes eu nunca nem entro no mar mas eu vi seus olhos em mim certa vez e isso foi tudo o mais profundo possível
eu tenho um violão e eu sou uma dançarina sem canção eu respiro e cada nota minha desafina e arde eu não tenho música mas eu canto sempre
talvez não de tarde e no meu bairro alguma igreja toca a ave-maria eu não toco nada mesmo eu gostaria de tocar tambores eu não tenho som e eu grito que a cidade fica triste
eu sou uma poeta sem versos sem rimas e sem tiros mas eu já chorei rios e rios eu juro que tudo que sinto é de verdade mas as editoras recusam meus originais
eu não sou original eu sou igual aquele riso seu e dele e dela e eu também sou o moço que vi hoje deitado debaixo do viaduto e eu me perguntei que sentido isso tudo faz
e não faz
eu nunca entendi análise combinatória e não sou aleatória eu tenho alvos eu tenho calos de tanto segurar nas mãos os espaços da minha memória e burilá-los em obras de arte que não se concretizam
eu sou uma dançarina sem sapatos sem compasso eu estou na corda bamba e tenho medos muito medo de alturas mas eu não sei andar no chão
eu caio no chão eu sou uma turista de gentes de quartos de lombadas de livros achados e restos de cigarros e de janelas que me veem por dentro
e ventam em meus cabelos que são como os de alguém que foge quando você parte desenha em mim duas estradas em direções contrárias e eu quando vou é sempre,
quase sempre, sem ida e sem volta.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

cidade


eu fujo para a cidade gigante onde somos amantes. sigo imprudente como um pequeno passarinho que se estende longamente ante a roda de um carro até não mais poder antes de escapar num voo rápido. embora eu não, nunca escape. as rodas dos carros e os sinais de trânsito viajam pelos meus sinais da pele apontando avenidas que eu quero devorar porque dói algo em mim que diz

espaço

e eu respiro dentro de minhas paredes magoada com últimos acontecimentos e descrevo nas fotografias tentativas de sorrir e nos versos fotografias de tentativas todas essas coisas que eu viro e desviro em mim porque não sei onde começa meu avesso – meu verso é cada um um último suspiro
então eu me agarro a todas as suas ruas enquanto as pessoas sem me ver sem me chamar sem me socorrer enquanto eu grito

me beba

passam e eu agarro coisas soltas virando um grafite no muro um grafite bonito num muro eu sou tão bonita azul.
as luzes da cidade azul à noite desfecham minha narrativa insone e eu espero um recado, e só me dão uma prece, às vezes, no ônibus me pedindo que aceite... jesus

a cidade não me pede mas a ela eu digo que

aceito

e elaboro uma aliança de postes de luz e linhas de metrô enrolando-se em nossas mãos de casados eu e ela dançamos por aí despejados de quaisquer outras portas
infieis, sujos e cansados.

- a cidade é grande e nela cabem meus grandes olhos esfomeados.

domingo, 30 de setembro de 2018

escrevo porque não grito ou como enfeitar um domingo triste de sol em salvador

estou em uma cama anônima de um albergue, quarto coletivo. alguém está no chuveiro e chega até mim um cheiro bom de sabonete.

eu imediatamente perco a vontade de sair na rua porque salvador está ensolarado. e eu estou em um quarto de albergue porque na última semana eu chorei por uma hora e quarenta e seis minutos enquanto você assistia a um filme de ficção científica e então você me expulsou de sua residência. eu lembro de acordar todas as manhãs com teu cheiro de sabonete.

ontem eu escrevi que cê tem um riso, um riso de salvador de tarde. e em salvador, como neste quarto de albergue, nada é meu fora as saudades.

e um livro de poesia que comprei ontem por trinta e sete reais e oitenta centavos. calculei que com esse montante eu compraria três refeições, o que me fez refletir sobre minhas opções.

antes de comprar este livro sentei-me para pensar em você porque havíamos passeado nesta mesma calçada há uma semana e então eu tomei três cervejas caras escrevendo uma coisa boba sobre esbarrar em você de tarde.

é salvador que faz isso, eu nem escrevo assim tão sol.
             gastei os tubos tomando estas cervejas e penso em sutilmente  abertamente enviar-lhe a conta.

por acaso toca caetano. caetano é baiano, você é baiano, você gosta desta música eu penso em você cantando pra mim e a vida fica muito, muito difícil.

penso em você falando desse papo todo de espaço sideral e eu não aprendo tudo porque teu dente é torto, o dente da frente, e eu francamente fico achando tão engraçadinho essa coisa de menino que teus olhos também têm
que dou um salto quântico.

e eu sei que esse texto ficou grande eu sei que eu pareço que estou vazando.
desculpa o jeito, o derramamento de sangue.
é que você tem o riso do tamanho até do rio vermelho. 
mas eu, o espaço sideral, salvador
somos gigantes.

sábado, 15 de setembro de 2018

recôncavo


não troveja no recôncavo. não relampeia. não nesta parte do recôncavo. não aqui.
onde habito faz dois anos que espero uma tempestade.
apenas em sua casa, em sua casa, baía de todos os santos, venta.
todos os santos. e tenho medo dos barulhos da casa. o vento se entrincheira nos espaços do telhado erguendo o isopor. prevejo gentes subindo pelas escadas escancarando nossa porta e..
olhos vidrados, eu e você acordados em silêncio nos abrigamos sem nos dizer.
de dia somos felizes.
vivo.
*
latitude: 12º 40' 12" S
longitude: 39º 06' 07" W
cruz das almas.
cruz. das almas.
nome soturno... eu alma penando sobrevivo me escondo.
lá de onde sou o dia está escuro. me contam de friagens que não mais adivinho.
habito o semi-árido. a friagem dos silêncios de uma estrangeira que ainda não fala esta nova língua.
sou de muitos lugares.
que lugar me é?
*
o recôncavo se acha no contato de duas regiões brasileiras bem diferentes — o nordeste e o chamado leste, tendo da primeira muitas características (os “tabuleiros” terciários, o solo de massapé, o clima tropical, o elemento negro, a cultura canavieira), mas apresentando aspectos que o individualizam ou prendem mais à segunda.

me acho no vazio entre duas regiões brasileiras bem diferentes – o nordeste e o amor, tendo da primeira muitas características (o calor, a aridez, as verdades), mas apresentando os aspectos que me individualizam (ou prendem) mais à segunda.
*
não estou aprendendo a sonhar esses novos sonhos.
não estou aprendendo a me despedir.
saí pra ver a tarde – o céu era azul e tangerina.
azul e tangerina, não há como ser imune a estar cor.
as ruas ainda exibem bandeirinhas de festas juninas e nós estamos perdendo já o mês de setembro.
como em mim insistem as fagulhas de anos retrasados. estou atrasada estou atrasada.. e os cordões dos blocos me separam das festas.
bebo aqui sozinha sem oferecer gole nenhum ao santo.
me esqueço...
*
a beleza da baía de todos os santos em nada fica a dever à baía de guanabara. tanto num como noutro caso, a baía faz o papel de um pequeno mar interior.

quando menina no rio de janeiro eu queria ver o mar. voar de asa delta. ir ao festival de rock. queria também ser repórter.
30 anos depois salvador. vejo o mar. tenho medo de alturas. de multidões.
ainda sonho.
sou imensa e meu desvario faz o papel de um pequeno mar interior.
mar interior...
*
o mapa geológico mostra que é no recôncavo que os terrenos cristalinos afloram junto ao oceano pela última vez, se caminhamos no rumo sul-norte, do mesmo modo que, a partir dêle, as formações terciárias litorâneas passam a ser contínuas e apresentam suas maiores larguras.  do ponto de vista topográfico, é também o recôncavo uma zona de passagem entre as formas arredondadas, típicas do cristalino, e as formas tabulares, que caem em abrupto através das “barreiras”. ali cessa, atualmente, a grande floresta quente e úmida, que é a mata atlântica, para iniciar-se o domínio da vegetação mais pobre e menos bela, semi-xerófila, que encobre os “tabuleiros”.

tenho medo. de que aqui no recôncavo meus terrenos cristalinos aflorem junto ao oceano pela última vez.
ainda que nele minhas formações tenham apresentado suas maiores larguras.
o recôncavo tem se apresentado uma zona de passagem. entre formas de antes... cristalinas... e as de agora, caindo abruptas através das barreiras.
que serei eu depois das quedas?
rio manso? corredeira? serei eu? tenho medo do depois das despedidas. de vós tenho me despedido internamente como me despeço de mim de outrora, cristalina.
cessará  minha floresta dando este lugar árido, de mim, à vegetação mais pobre e menos bela.. que encobre os tabuleiros...?
*
estou no nordeste brasileiro. ao leste de mim meu coração também se salva árido e forte, cotidianamente.

(Trechos em itálico retirados do artigo R E C Ô N C A V O D A B A H IA Estudo de Geografia Regional, de AROLDO DE AZEVEDO).

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

pipas


eu te amo, eu digo à moça da bicicleta que passa levan­­­do sua menina na garupa – de tranças – porque ela sorri e o dia está ensolarado e ela leva sua menina à escola e afasta meus pensamentos por um breve instante soprando no vento poeira e poesia

um beijo na testa do senhorzinho que vai adiante em meu caminho explicando à filha a profissão de vendedor de flores – a paciência de explicar concretudes em palavras de criança entender

abraço com os olhos a moça que se esconde trás de um muro, sorridente, entretendo o menino pequeno que a busca em brinquedo baixo o sol do meio-dia

também os meninos que soltam pipas

também as doninhas que vestem vestidos de retalhos e debaixo de suas sombrinhas fazem a fresca em minha fronte quando me espanam um olá um bom dia um sorriso, eu que nem quase existo mas elas surpreendentemente
                me veem..

sobretudo eu te amo, digo ao poeta que subverte as coisas tolas
e óbvias em súbito encantamento – palavras entortadas, as que dizem...
os usos insuspeitos de cada palavra
(palavras que salvam minha/tanta vida)

                Me refaço e digo aos crentes que não perdi a fé! – essa âncora..:
                deus existe, deus existe, menina. deus existe e ele é uma metáfora.

sábado, 14 de julho de 2018

4 meses e algumas consequências depois


é porque qualquer coisa me faria chorar. é porque eu tenho essas janelas por onde me escondo, me escorro. eu vi a lua. pus uma música pra dançar mas nem tinha com quem. pisei meus passos nos taquinhos do chão. a lua enorme ela. quis lhe fazer uma canção. quis ouvir teu coração. um barulho um solo uma garrafa qualquer entornada me fazendo sentir acordar. a lua divina ela. divina. mas não tinha pra quem falar. fiz um poema. que é meu jeito de contar

novidades. estendi os olhos sobre os azulejos de um bar. quis me entornar. é porque qualquer coisa me faria chorar. essa saudade. falta de novidades. azulejos. solos. taquinhos do chão.

sexta-feira, 23 de março de 2018

versinhos do desapego


Vai embora você 
já me deu tanto fora 
que me mandou embora
sem eu perceber
Vou embora de você
que esse ponto já foi meu
e eu perdi de vez
e me desencantei
Eu catei das tuas auroras
tua vontade de me ver
se é que quis me ver ou me vender
a troco de um não sei o quê
Vai embora você 
já foi tanta conversa
terminada em estilhaço
espalhado pelo chão
Ai meu coração deixa dessa emoção
que me dá teu olhar
só porque ele é pequenino
e eu aqui na solidão
Vou embora de você 
que já perdi a hora 
te contei foi tanta história de desilusão
Cê não crê na minha lábia nem na minha fala séria...
vou-me embora já é tarde e só sobrou uma canção.


terça-feira, 13 de março de 2018

pequenices



sorrio das coisas abstratas. daquelas coisas imensas como a cançãozinha entoada em voz de avó
- boi boi boi boi da cara preta pega a heloísa que tem medo de careta...
...no entardecer de um dia desses da vida esses em que a gente tem vontades de sentir esperança.
como buracos no telhado que me deixam a percepção dos últimos olhares mornos do dia.
como flores lilases nascendo insensatas no meio do muro.
como minha mãe engenhando brinquedos com caixas de remédios.
                a fritar batata-doce.
                a me dizer para ter vaidades.
                a por fitas nos meus cabelos – rendadas.
como um surdo-mudo roçando sentidamente seu peito para significar saudade.
(...cá estou eu roçando meu próprio peito por saudades de tantos de vós...)
hoje vi beleza na rua... me faço alegre.
sofro dessas imensidades...

as mesmas que me trazem paz.