sexta-feira, 3 de novembro de 2017

de mentira

olhei em volta o quarto e tudo nele amarrotado. eu mesma assim. escrevi um bilhete fazendo de conta que acreditava alguma mensagem lembrando a mim mesma que já morri de outras vezes e nunca foi verdade. e dessa vez não tinha um grande amor pra culpar, eu não tinha você pra atirar facas

sem ponta. olhei a ponta dos meus pés. escondi meu corpo num esconderijo feito de meus próprios braços em orla. tive vergonha da minha fraqueza mas era tudo o que eu sabia ser. uma ilha cercada de lembranças

de mentira. quase tudo que tenho sou eu que invento. invento a dor como invento o amor, em geral produzidos pelas mesmas vias lacrimais. sinto e ninguém entende como sinto tanto. é que sou enorme gigante

por dentro. por dentro quase tudo é profundo. quase tudo é raiz. é fome. é raro.

por fora eu sou assim sem cor. um largo sorriso torto atingindo quinas de portas, erros de cálculo, deixando palavras cruzadas insolvíveis.


palavras. eu.
insolvíveis.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

desarmada


eu queria de novo estar errada
só pra estar numa luta dessas nossas encerradas
com arranhões ou frases devoradas
ao pé de ouvidos e canções

eu não queria estar assim amarrotada
mas é que peguei o primeiro avião de papel
pra te dizer que o lugar onde eu vivia
era aquele de ouvir teu peito em descompasso de tropel

eu queria te dizer que amei de novo
e que tua falta já não faz
tanto fez
eu não queria chorar mas sou oceânica
e queria ser uma santa dessa vez

mas entorno copos em sua memória
e fumo como uma mulher estilhaçada
na verdade sou uma bomba programada
pra florir quando você sorrir

eu sei que ce vai lembrar
que me suicidei três vezes –
remediada –
mas eu ando agora desarmada
herdei das horas hordas esperançadas
e ando rindo outra vez

antes a folha de papel tava rasgada
porque eu não floria mais versos
sem você me abrir

desculpa voltar afogueada
só pra te contar essas bobagens
e te pedir milagres
eu que não creio em nada

eu sou só essa mulher embaraçada
de sol nos olhos,
faca nos dentes,

e despenteada.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

stela



há muitos anos não fazia verão. as nuvens escondendo todas as estrelas por trás de seus cúmulos e noites sem lua. desconfiava de fins do mundo todas as tardes em que o crepúsculo é rosado. mas o rosa, apenas, perece. nós todos... seguimos.
quando fez verão, a última vez, eu deitava meu rosto sobre seu peito. e então de ouvido colado pressentia movimentos como os índios apache.
- está rápido demais.
você me dizia com a convicção dos xamãs.
- vou morrer disso.
era um coração assim aos saltos, aos pulos, feito corcel sem domador. às vezes corria às vezes dava uns sustos assim de parar.
- você morreu?
em mim, não sei. de verdade, de verdade verdadeira quem morreu do coração fui eu. quando você levou embora as luzinhas dos vaga-lumes, das estrelas, dos seus olhinhos oblíquos, das velas das preces últimas, que não consertaram nada, nada. 
eu morri escangalhada feito boneca de que não se gosta mais porque se ganhou outra mais faceira.
e desde então eu não vi mais estrelas. porque seus olhos iam longe, olhando outras coisas, essas paisagens que distraem, que vagueiam, que vagueiam por nós mesmo que a gente as caminhe sem ver.
mas hoje saí para chutar umas pedras, andar pela cidade como uma visitante. havia barulho. um grupo escolar que fazia passeata por seus sessenta..setenta..anos de fundação. 
um grupo escolar, nessa história em que antes tinha eu e você e as estrelas que, faz anos, escondidas por trás das nuvens.
passada a passeata dos escolares, purpurinas, serpentinas, frases de celebração, fanfarra, balizas e suas piruetas, só eu, chutando minhas pedras. no chão, os restos dos festejos.
esbarrei com uma senhorinha que vinha, cabelos brancos ajeitados num coque como as senhorinhas dignas e perfumadas de lavanda que eu quero ser quando crescer. e ela parou, me chamando a atenção, como se fosse frase que eu compreendesse.
- estrelas no chão.
então olhei a ponta dos meus pés, do jeito de se fazer quando se busca explicação no único algo que liga a gente à terra. e eu vi. de múltiplas cores de papel laminado.
estavam lá, todas elas espalhadas pelo chão. as estrelas.
sorri. virei para trás para acenar mas não havia mais senhorinha. havia só eu e meus olhos de brilhozinho crescendo, crescendo, crescendo...

talvez, quem sabe, parindo estrelas?

terça-feira, 29 de agosto de 2017

saudades


Na minha terra nova não tem tempestade. Há muitos meses não ouço o estrondo medonho de um trovão, nem pisca no céu um raio sequer por iluminação... mas como terra indecisa e provisória que é, para mim, sempre busco nela uns arco-íris, de suas intensas alternações entre chuvas macias e sóis rotundos.
Na minha terra nova sinto falta de uns perfumes, de gente que me abraçava. De uns sorrisos encontrados no meio da rua. De umas ruas.
Na minha terra nova falamos todos ainda a mesma língua mas era em outros idiomas que eu me comunicava... sou quase estrangeira, quase nada, pedra, parede, esperando meu dia de árvore ou flor em botão.
Sinto saudades dos risos que não dei quando era para ser alegre e eu imaginava farpas sob as unhas ou dolorosas dores de dente. Sinto saudades dos risos que dei para dentro de beijos ...seus. 
Na minha terra nova não tem beijos não tem ocê não tem sequer um anjinho de asa quebrada uma coisa assim singela pra me alimentar de ternura, faminta eu.
Sinto saudades de ver o dia nascer sem ter ido ainda para casa. Sinto saudades de ir para casa. Um bom lugar para voltar.
Na minha terra nova a casa é quase nunca, um respiro, um abraço... é quase sempre uma saudade só.
Na minha terra antiga eu trovejava, céu inteirinho. 
A minha terra nova me enche de claridades...

terça-feira, 15 de agosto de 2017

meu coração é um samba triste


meu coração é um samba triste em fim de madrugada, aos tropeços, na ida embora para casa, sem pressas, cadenciado. 
na rua quase deserta uma voz de mulher que me lembra certos olhares teus. um refrão.
meu coração é um bêbado em fim de samba, exorcizado, evitando a cama porque nela não existo mais desde que você pela última vez levou embora os brilhos de estrelas que espalhavas sobre ela. solidão.
meu coração é um lamento sem palavras, acompanhado de um tamborilar de chuva rasa. canta, sem saber a letra, uma canção...
meu coração é um samba triste... triste...


no meu samba tem um coração.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

literatura

percebo cada vez mais que não sei escrever literatura e a bahia tem me corrompido com suas longas solidões amarelas. não sei de versos, apenas choro linhas esdrúxulas desabafando para amigos invisíveis as dores todas que eu consumo à medida que o dia muda de cores. especialmente aquelas horas rosas roxas púrpura... do crepúsculo às oito horas em ponto e suas decorrências que apenas adivinho.
nunca escrevi qualquer coisa que tenha enredo, em geral tudo que escrevo são declarações de amor. sutis ou aos berros. quando sinto demasiadamente, e isto é quase sempre, o que faço é sacar polaroides de momentos em que só existir não é suficiente.
desconfio que sou transbordante.
tenho trinta e sete anos e ausências de carreira, companheiro, dois filhos, cão de estimação. a decência que conservo é gostar de escutar poemas e tenho feito disto minha atual profissão.
não tenho plano de saúde.
não tenho plano.
...tenho planos mas eles se referem a performances artísticas em praça pública, para as quais não tenho talento. não tenho talento também de olhar as pessoas e coisas nos olhos por isso mesmo eu escrevo coisas que não são nem verdade nem literatura. eu não sei até que ponto escrevo ou existo. como um verso errado tomba da escrivaninha – uma coisa um pouco pequenina, amarrotada e crua.
e muito embora eu não escreva um só conto um ensaio um poema estou atada de certos modos a estas minhas escritas... penso que nunca soube sentir por outros meios que não fossem feitos de papel e linhas.

(inclusive a sensação de voo ao soltar pipas).



quinta-feira, 6 de julho de 2017

depois de um mês


sobreviver porque chove. chove silenciosamente. não há nesta terra vento. eu ouço o mesmo disco há anos, porque tenho medo de outros sons. tenho medo eterno de abrir a porta e ver que é dia. e que retiraram na surdina as bandeirinhas da festa. já não há mais foguetes, não há mais pequenos brilhozinhos chegando à minha janela como passarinhos feitos de som. já não há mais em mim poemas, eu escondo no bolso de uma camisa um rascunho de discurso para quando você quiser me ouvir.
sobreviver porque cresço. cresço e já não caibo mais no corpo de antes e não tenho onde deixá-lo. não tenho mais a pele de antes e nenhuma outra nova. nenhuma boa nova. nenhuma nuvem.
sobreviver porque sonho pouquinho. não da imensidão de antes, não do sorriso grande. acho que ele mudou porque o céu mudou, porque o som mudou. mas da imensidão de agora, como chuva que chove silenciosamente. sem vento sibilante. com alguma canção indignada para dormir, alguma oração pagã para uma manhã. vã.
sobreviver porque ainda esboço reações e choro quando quero dizer.
escondo no bolso da camisa um verso para quando existir.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

queda livre

ar...
um salto que disparasse o movimento da terra inversamente e me colocasse lá naquele ponto em que...
todos os meus sentidos parados em queda livre eu só sinto o peso de ir contra as nuvens contra o mundo contra o vidro...
e isso já é viver.
antes de alguns segundos repartirem em diferentes pedaços uma lembrança que vou repetir diversas vezes antes de considera-la bem explicada ou desista -
desista....
não, porque sou um pedaço de aço ferindo a própria pele
porque isso já é viver.
viver um salto que fosse mortal e de tanto me ressuscitasse todos os dias
ar...
acordar e não ter percebido a noite. disparar três tiros nas frases prontas que vou repetir diversas vezes antes de não sentir dor – quantas ameaças contidas em suas imprecisões.
disparar três tiros na noite. acordar sangrando, singrando, mordida.


saltar.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

sol


enorme carrega a barriga, redonda, como um sol. adentro outros olhos de ver o mundo. espera que vejam menos guerra, mãe, espera que vejam menos tiro, espera que vejam mais paz e pão. enorme carrega o sol, redondo, como um filho. adentro outros futuros mundos, virão. carrega na ponta da mão o outro crescendo. espera que sintam menos fome, mãe, espera que sintam menos solidão, espera que entendam mais paz e pão. enorme carrega a barriga como um arco-íris. adentro, cores de pintar o mundo, são. espera que venham sãos, os filhos. como sóis, de ilumiar o mundo, virão...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Clara


Claros olhos da manhã
E meus olhos rasos d’água
Clara, as cores dos teus olhos
Estrelas na madrugada
Toco a vida e minha viola
Que a saudade não se acaba
                Ê boi!...
                Ê boiada...

E contra o castigo do tempo
Laço minhas alegrias
Doce e dureza, Clara
Agreste flor de meus dias
E no atropelo dos bichos
O tropel de meu peito, Clara
                Ê boi!...
                Ê boiada...

Ê juntar os animais
juntar claras esperanças
Atravessam a poeira os bichos,
E seus olhos claros de lança
Oram a Nosso Senhor pela hora clara do dia
Ora, Clara, pelo dia
                Ê boi!...
                Ê boiada...

terça-feira, 2 de maio de 2017

flor


por que dissesse, flor
que fosse embora?
e agora, flor
não sei mais rir...
girava a flor
nos seus cabelos, flor
no seu sorriso
que vai sumir...
por que deixasse, flor
eu sem teu cheiro?
eu sem teu beijo,
pra onde ir?
tem só saudade, flor...
ah, s'eu pudesse...
se ocê voltasse, flor,
pro céu abrir...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Retratos



Quando chovia se usava galocha Ou a sacola da mercearia Depois, a do hipermercado Depois. Eu era grande e não me importava em molhar os pés.
A fita rendada no cabelo A farda azul marinho o brasão do município no peito - eu nem sabia. O joelho encardido as meias enroladas.O medo do futuro vidrado nos (gloriosos) boletins.
Quando o Brasil perdeu minha primeira copa Tinha tinta nas ruas Eu não sabia onde era o México. Mas quando perdeu minha segunda copa Eu, que não entendia então por que o Brasil era o país do futebol, Chorei quando levei – eu, eu – o gol do Caniggia. Naquele dia meu irmão enjoou de pipoca - não volta a comer nem agora que calça quarenta e dois. Mas depois a gente jogava botão, BRASILXARGENTINA – foi aí que aprendi a torcer contra a Argentina. 
Minha avó morava do outro lado do país não dava pra visitar nos fins de semana. - também não dava pra ir no cinema nem pra ir para fora do portão mas isso a gente sabia que tinha.
Quando minha avó primeiro me visitou Minha mãe foi à feira Ganhamos barras de chocolate meio-amargo Minha avó alemã escovou os dentes, por engano, com creme de barbear. 
E não me beijou... pensei que ela fosse muito antiga.
Quando eu cresci eu estudei inglês, espanhol, francês.
Minha avó só sabia a língua dela.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Santiago carrega nuvens

           
    Santiago tocava sinos numa cidade – zinha, zinha, zinha – onde todo mundo se comunicava pelas janelas. Pelos cotovelos, becos. Pelos sinos. Pelo sim, pelo não, pelas bocas.
   Pelas ruas da cidadezinha dia noite - noite dia Santiago carregava nuvens. De sua pequena casa arrumadinha depois da última placa de boa viagem, Santiago saia, levando na mão suas 2 ou três massas alvas no colorir do todo dia. Escolhia a paisagem conforme as horas do dia - nuvens esfiapadinhas para aquelas horas de preguiça - sono leve – colchão – ventilador – nuvens sábados  a tarde. Ou as grossas e pesadas nuvens de chuva – solidão .. volta para casa .. crianças .. poças espatifadas – trânsito caótico.. janela desenhada. Havia as nuvens carneirinhos. As nuvens adivinhação. Ou as nuvens de céu parado. Brancas, cálidas, mormaço – o mundo acabando em tardes espessas de fumaça nos olhos.
   Santiago dava bom dia, tocava seu sino, recebia fim de mês. Ia no bar dava uns goles, um pro santo em primeiro lugar. Rezava antes de dormir. E esperava. Alguns sonhos enquanto ia, carregado de nuvens.
   Com o tempo Santiago foi vendo o mundo passando, os sonhos rareando, o santo não vinha mais. As nuvens, algumas foram ficando pesadas. Umas se fundiam às outras, enquanto balançavam acima de sua cabeça. Emaranhavam-se os fios. Santiago ia, calças curtas tropeçando os chinelos, atrapalhando os pensamentos levantando suas bandeiras macias.
   Com o tempo não dava mais bom dia. Não rezava mais. Bebia a mais e esquecia o sino. Esquecia o gole do santo. Enfiava o sorriso no bolso da camisa quando ele queria vir sem motivo.
  Deitava sozinho em casa, fechava as cortinas, lá ficavam só aquelas nuvens flutuando pra fora da janela. Grossas, cinza, matronas esperando a hora do chá. De chover. De chorar.
  Santiago chorava baixinho. As pessoas foram esquecendo Santiago, mesmo porque ele morava bem depois, depois da última placa de boa viagem. A cidade acordava dormia, puseram outro pra tocar o sino. A cidade ia falando pelas janelas, pelos risos, e pelos fundos da casa Santiago se escondia dentro da chuva.
   Um dia Santiago carregando nuvens foi pra rua. Sentou, contando as moedas pra comprar um doce. Dava. Ele andava fazendo uns bicos, pintando estrelas numa parede aqui, tingindo de céu escuro outro telhado lá. Passou um conhecido que lhe quis apertar a mão. Ele acenou com a cabeça. Outro que veio de abraços, tapinhas nas costas. Santiago gostou  - tempos em companhia das nuvens e saudade dos ventos.
  O doce numa das mãos, a cordinha das nuvens na outra, balançando cataventosas as nuvens pesadas grossas cinza. Nuvens, cúmulos.
 E foi aí que, no sol duma manhã, o céu azul dum azul sem manchas, Santiago foi levemente destrançando os dedos, deslizando as unhas em sua palma, liberando os cordões finos, que escorregaram pra fora dele tomando o ar, subindo-subindo, rabiscando dentro do fundo azul aqueles tufos de algodão.
   Santiago parado no meio da praça, sorrindo, quase voa. Sinos e sinos tocam. A vida é bela feito aquele doce meio mordido. Feito o céu. O céu e suas nuvens.