segunda-feira, 17 de julho de 2017

literatura

percebo cada vez mais que não sei escrever literatura e a bahia tem me corrompido com suas longas solidões amarelas. não sei de versos, apenas choro linhas esdrúxulas desabafando para amigos invisíveis as dores todas que eu consumo à medida que o dia muda de cores. especialmente aquelas horas rosas roxas púrpura... do crepúsculo às oito horas em ponto e suas decorrências que apenas adivinho.
nunca escrevi qualquer coisa que tenha enredo, em geral tudo que escrevo são declarações de amor. sutis ou aos berros. quando sinto demasiadamente, e isto é quase sempre, o que faço é sacar polaroides de momentos em que só existir não é suficiente.
desconfio que sou transbordante.
tenho trinta e sete anos e ausências de carreira, companheiro, dois filhos, cão de estimação. a decência que conservo é gostar de escutar poemas e tenho feito disto minha atual profissão.
não tenho plano de saúde.
não tenho plano.
...tenho planos mas eles se referem a performances artísticas em praça pública, para as quais não tenho talento. não tenho talento também de olhar as pessoas e coisas nos olhos por isso mesmo eu escrevo coisas que não são nem verdade nem literatura. eu não sei até que ponto escrevo ou existo. como um verso errado tomba da escrivaninha – uma coisa um pouco pequenina, amarrotada e crua.
e muito embora eu não escreva um só conto um ensaio um poema estou atada de certos modos a estas minhas escritas... penso que nunca soube sentir por outros meios que não fossem feitos de papel e linhas.

(inclusive a sensação de voo ao soltar pipas).



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